CÔNDOR


Contemplo no fim da tarde
quase cinza o azul do céu
e o sol posto já não arde –
vem a noite como véu.

Parado em meu mausoléu,
invejo a passarada –
canta e voa em escarcéu.
Tenho a alma agrilhoada.

Dentre tantas livres aves,
a mais altiva eu miro
planando vôos suaves
que, comovido, admiro.

Um côndor a mim parece;
nele minh’alma projeto.
Enquanto a terra anoitece,
o poeta em mim faz-se feto.

O sonho faz-se abortivo
ao revelar-se a imagem
do côndor: desce furtivo
para fazer rapinagem.

A nobre?! É carniceira,
pássaro mal-agourento.
A poesia altaneira?!
É lixo e não argento.

Nenhum comentário: